sábado, 20 de agosto de 2011

O futuro da esquerda: quadros promissores

Neste post eu reúno quadros políticos de esquerda que podem ser considerados jovens, e que ainda têm muitas eleições pela frente. São principalmente do PT, por este ser o maior partido da esquerda competitiva no Brasil, com 3 mandatos consecutivos na presidência. Neste levantamento, o político mais novo tem 28 anos e o mais velho tem 51. A maioria está na casa dos 40 anos, o que permite mais 2 ou 3 décadas de vida pública, a princípio. Além do critério principal, da idade, procurei selecionar lideranças de todas as regiões do país e que fossem, no mínimo, deputado(a) federal. Se alguém lembrar mais algum quadro, por favor, citar nos comentários. Penso que estes nomes têm potencial para crescerem politicamente em seus respectivos estados. Mas, para permanecer na própria presidência, a esquerda deve apresentar nomes viáveis que, provavelmente, sairão deste leque de opções:

PT

Gleisi Hoffman45 (PR)
Senadora e Ministra Chefe
da Casa Civil
Possível candidata a
governadora do Paraná (2014)
 Fernando Haddad48 (SP)
Ministro da Educação
Possível candidato a
prefeito de São Paulo (2012)
Lindberg Farias41 (RJ)
Senador
Possível candidato a
governador do Rio (2014)

Luizianne Lins42 (CE)
Prefeita de Fortaleza
Possível candidata a
governadora do Ceará (2014)
Marcelo Déda51 (SE)
Governador de Sergipe
Maria do Rosário44 (RS)
Ministra dos Direitos Humanos
Ex-candidata a prefeita
de Porto Alegre (2008)

Nelson Pelegrino50 (BA)
Deputado Federal
Possível candidato a
prefeito de Salvador (2012)
Alessandro Molon39 (RJ)
Deputado Federal
Ex-candidato a prefeito
do Rio (2008)
Ângela Portela49 (RR)
Senadora

Cláudio Puty41 (PA)
Deputado Federal
Presidente da Comissão de Finanças da Câmara

Rogério Carvalho 43 (RJ)
Deputado Federal
Possível candidato a
prefeito de Aracajú (2012)
Gabriel Guimarães28 (MG)
Deputado Federal

Outros Partidos

Eduardo Campos46 
(PSB/PE)
Governador de Pernambuco
 Manuela d’Ávilla30 
(PCdoB / RS)
Deputada Federal
Possível candidata a prefeita de Porto Alegre (2012)
Brizola Neto32 
(PDT / RJ)
Deputado Federal

É preciso considerar que, nas próximas décadas, surgirão novas lideranças que podem ascender rapidamente nas estruturas de poder internas dos partidos. De qualquer forma, as lideranças neste post já estão consideravelmente consolidadas, têm um trabalho reconhecido, além de preparo e compromisso social.

Ademais, é impressionante como o nível da aparência melhorou.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O jornalismo que só pode ser de esgoto

A mídia pode exercer a função de fiscalizar, cobrar, pressionar o Governo. Pelo menos é o que defende boa parte dos jornalistas. “Mídia não pode ser chapa branca”, explicam. De fato, o jornalismo pode ajudar a descobrir coisas erradas e incentivar os governos a mostrar trabalho. Seria válido, se valesse pra todos os partidos, e todas as correntes ideológicas. Os veículos de maior alcance, no Brasil, deram grande visibilidade para as críticas da oposição e os escândalos do Governo Lula, é seguro dizer. Mesmo à figura pessoal do Lula, há sempre certa resistência, por parte do colunismo político. Ao ponto de simpatizantes da esquerda e do lulismo disseminarem-se pela internet com blogs para rebater as versões mais comuns no jornalismo. Seriam tantos esquerdistas complexados? Acometidos de mania de perseguição? Adeptos de uma teoria da conspiração? Alguns, pode ser. Todos, improvável.

Pelo menos este caso, do Paraná, estampa de forma gritante que o jornalismo pode ter preferências e simpatias, usando dois pesos e duas medidas. À época dos mandatos de Requião, Fábio Campanha era implacável! As críticas, as mais duras, eram diárias. Poderíamos aplaudir a postura vigilante, fiscalizadora, republicana, do jornalista. Não fosse a mais abrupta inversão de posicionamento, assim que iniciou o governo do PSDB no Paraná, com Beto Richa. O jornalista passou a uma eufórica tietagem do tucano. Ainda sobram críticas a Requião. Eventualmente, ao Governo Federal. Campana virou crítico ferrenho... da oposição! Exercida naquele estado principalmente pelo PT. Ao governador, o jornalista presta um serviço melhor que o de qualquer assessoria de imprensa. Essa história de jornalista crítico e combativo parece depender da conveniência... Uma pessoa pode ter preferências político-ideológica. Mas, uma coisa é expressá-las como um cidadão comum, outra coisa é travestir militância partidária de "jornalismo".

Campana é colunista político de alguns dos maiores jornais do Paraná: O Estado do Paraná, Tribuna do Paraná e Gazeta do Paraná. É ainda diretor da editora Travessa dos Editores, e editor das revistas Et Cetera e Ideias.

  

 

 

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O caso Palocci

Do papel da mídia

Pressão da oposição, por si, não derruba ninguém. Pressão da oposição, o Governo sofre permanentemente, em vários pontos do mandato. Sem a decisiva contribuição da mídia, um episódio como o do Palocci jamais tomaria estas proporções. Mas, convenhamos, um Ministro chave que teve seu patrimônio multiplicado por 20 em alguns anos é algo que para ser amplamente explorado não precisa de mídia golpista, precisa de mídia. Qualquer veículo de comunicação verá neste tipo de episodio um prato cheio – pela relevância do acusado, pela possibilidade de uso do tom alarmista ao qual a mídia predispõe-se, pela intensa movimentação gerada, pela atenção que chama etc. De maneira geral, o jornalismo tem se utilizado destes expedientes, como estratégia de sobrevivência mesmo. A entrevista que Palocci concedeu a Jornal Nacional, por exemplo, garantiu excelentes índices de audiência.

Agora, é evidente que houve exageros e precipitações ao longo de toda a cobertura feita do caso – seja pelo alarmismo de praxe, seja pelas simpatias políticas de quem comenta. Após o ex-Ministro ter falado ao JN, Cristiana Lôbo comentou, no Jornal das 10, que sem a entrevista,”nós estaríamos aqui discutindo os nomes que substituiriam Palocci na Casa Civil”. Pois foi exatamente o que a colega dela, Renata Lo Prete, tinha feito dois blocos antes.E o que a própria Cristiana tinha feito no Fatos Versões do sábado anterior. O que dá bem o tom da precipitação que contaminou a cobertura sobre do tema, desde o começo. E é claro que a cobertura ostensiva, em todos os principais espaços midiáticos, já garante o prolongamento e agravamento do caso, ainda que não haja concretamente um fato novo. Não se trata, portanto, de movimentos ou avaliações exclusivas do mundo político.

Do mérito

Um caso como este manifesta avaliações diametralmente divergentes: desde aquelas que enxergam um delito gravíssimo, que exala tráfico de influência e faz da presença de Palocci no Governo algo que prejudica o país; até aquela que descarta qualquer possibilidade de crime, e reduz tudo ao embate político. Respectivamente, os discursos da oposição e do governo. Diante de um espectro tão amplo de leituras, e considerando a contaminação política que de fato existe, o melhor parece mesmo recorrer à análise do mérito. E, neste caso, o mérito é jurídico. Até o momento, o Procurador Geral da República optou pelo arquivamento do caso, alegando que não há indícios mínimos de atividade criminosa tipificada pela lei.

Considerando os valores estratosféricos que as empresas estão dispostas a pagar – e falamos aqui de algumas das maiores empresas do país – não é de se estranhar a evolução patrimonial de Palocci. É bastante comum que o setor privado invista valores vultosos para atividades de consultoria, palestras etc. O questionamento que pode ser elaborado é no sentido da promiscuidade deste trânsito entre a atividade empresarial e a política, quando certos atores migram de uma para a outra ou conciliam diferentes interesses. A questão é válida, mas seria um trabalho árduo repensar esta relação, na medida em que a maioria dos deputados exerce atividades privadas ou comerciais.

Do desfecho

A presença de Palocci no Governo tornou-se politicamente desvantajosa. O parecer do procurador proporcionou um discurso para a base aliada, e até poderia manter o Ministro na Casa Civil. Porém, isto representaria um custo muito grande. A oposição teria mais respaldo para aprovar a convocação de Palocci ao Congresso e até para conquistar mais assinaturas para uma CPI. A mídia teria justificativa para manter o assunto aquecido. O Governo teria imensa dificuldade para construir o que se denomina “agenda positiva”. Seria muito inviável.

Da imagem de Dilma

Retomando a idéia de que um episódio como este não torna a mídia brasileira golpista, avalio que o tratamento jornalístico concedido à Dilma continua até bastante simpático – profundamente diferente daquele concedido ao Lula. Fora algumas exceções mais afobadas (tipo Merval Pereira), tem sido comum a interpretação de que Dilma tratou o caso com discrição e sobriedade. Claro que algum desgaste é inevitável. Perder o principal Ministro com 5 meses de Governo é um duro golpe. Mas nada que não possa ser dissipado ao longo do tempo, ou que prejudique de forma grave a avaliação da presidenta.

Da alternativa




Glesi é um quadro político em ascensão, inteligente, bem articulada, e defensora competente do Governo. Foi secretária no governo do Mato Grosso do Sul e na prefeitura de Londrina, além de diretora de finanças de Itaipu. É advogada, com especialização em Gestão e Administração Financeira. Politicamente, participou da equipe de transição de Lula, em 2002, e foi presidente do PT no Paraná. Eleitoralmente, concorreu ao Senado em 2006, quando perdeu para Álvaro Dias (apesar do favoritismo do adversário, Gleisi obteve votação expressiva); concorreu ainda à prefeitura de Curitiba em 2008; e foi eleita a senadora mais votada do Paraná, no ano passado, mesmo disputando contra o Governador Roberto Requião (que ficou com a segunda vaga), e com os candidatos da chapa de Beto Richa, do PSDB, que foi eleito Governador. Tem opiniões um pouco mais conservadoras que a média do PT para temas como aborto e direitos de homossexuais. O pouco envolvimento da senadora com o mundo político de Brasília pode ser um mérito. Espera-se de Gleisi Hoffman um trabalho mais técnico, de gestão e menos político, como é a proposta da própria Dilma na presidência. A escolha fortalece muito um quadro petista de grande potencial.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Conivência ou Resistência: uma questão de atitude.

Ditadura gay. Heterofobia. Gays como classe ‘especial’ ou privilegiada.
Violação da liberdade de condenar. Censura ao ‘direito de ser contra’.

Às vezes, a simples forma como uma opinião começa a ser enunciada é suficiente pra revelar toda uma mentalidade. Que aspecto alguém opta por salientar, numa discussão complexa e múltipla, pode ser sintomático de toda uma postura. Eu acho, no mínimo, muito intrigante, por exemplo, este discurso que opta por denunciar uma possível inversão de quadro que levaria a uma ‘ditadura gay’, ou à ‘heterofobia’. Nas conversas informais, no twitter, em comunidades online, em caixas de comentários de blogs etc. vejo como as pessoas incomodam-se com o fato de gays, agora, serem um grupo ‘intocado’, protegido, com o qual ‘ninguém mexe’. Daqui a pouco vai ser motivo de vergonha homem se relacionar com mulher, teme-se. Em breve, vão impor a homossexualidade, a nós e a nossas crianças, especula-se.

Hoje, é praticamente garantida a presença de argumentos deste nível em debates sobre homossexualidade. É mesmo um ponto de vista intrigante. Especialmente, num país em que os homossexuais, para além de serem ‘mexidos’, discriminados de inúmeras formas, são MORTOS por ser quem são. Um país em que as formas de agressões, físicas e morais, são absolutamente disseminadas, cotidianas e bárbaras. Um país em que o jogador de vôlei foi hostilizado por um estádio inteiro por ser gay, o rapaz da paulista teve uma lâmpada estourada no rosto porque desconfiaram de sua masculinidade, a adolescente de Goiás foi assassinada por namorar a filha de um fazendeiro. Neste contexto, alguém estar mais preocupado com o movimento de proteção dos gays me diz o bastante.

Editorial da Folha de São Paulo de hoje defende que, numa sociedade civilizada e democrática as pessoas devem ter o direito de “se manifestar pacificamente contra homossexuais”. Será que as pessoas também deveriam ter o direito de se manifestar pacificamente contra negros? Contra mulheres? Contra nordestinos? Contra pobres? É muito fácil dizer que as pessoas podem manifestar seus preconceitos, quando todo mundo sabe quem serão os alvos destes preconceitos. E, certamente, não serão brancos, centro-sulistas, grandes empresários e banqueiros, ou heterossexuais. Recorrer ao grande guarda-chuva da liberdade de expressão, como forma de manter ataques morais, é muito cômodo para quem não será atingido por eles. Historicamente, e ainda hoje de forma explícita, os discursos “pacificamente contrários” voltam-se covardemente para aqueles grupos que sempre foram penalizados e excluídos.

Homossexuais precisam de uma legislação específica para proteger seus direitos, porque ninguém resolve de repente manifestar-se pacificamente contra héteros. A situação dos homossexuais em nosso país (sim, porque em várias nações já há muitos avanços) é estarrecedora. Carece de mais avanços, até mesmo, do que a situação dos negros ou das mulheres – que também são alijados em muitos aspectos. Não falo apenas da CNBB, das igrejas evangélicas, dos pastores e lideranças religiosas, que se organizam, pressionam o poder público, manifestam-se abertamente contra os gays, e trabalham para sabotar a igualdade civil e violar as liberdades humanas. Eu falo mesmo de uma consciência bastante popularizada, ainda, de que a homossexualidade é algo anormal, desviante, doentio. E isto acaba por sedimentar atos de repúdio, agressão, marginalização e restrição da cidadania de inúmeros brasileiros.

Tentar dar um basta a isto não significa conceder tratamento privilegiado, significa conceder tratamento diferenciado a quem é tratado de maneira diferenciada pela sociedade. E pouco importa que a maioria da população “seja contra” gays (pacificamente ou não). Não é possível ser conivente com a discriminação, não é possível subjugar uma minoria em nome da conveniência da maioria – e isto, sim, é verdadeiramente democrático. Nenhuma mentalidade, conservadora e dogmática, por mais disseminada ou majoritária que seja, pode diferenciar cidadãos com base em algo como preferência sexual e afetiva. Não em um Estado laico, democrático de direito. A profissão da fé, os valores individuais, os ódios cultivados, as contrariedades morais, as pessoas devem guardar para si, quando estão em jogo direitos fundamentais.